Mesmo fora do público alvo da vacinação contra monkeypox, a brasileira Renata*, 40 anos, quis tentar um agendamento para receber o imunizante na cidade onde vive, na Flórida. Conseguiu um horário em agosto. Naquele momento, as vacinas no Estado da Flórida eram divulgadas para homens que fizessem sexo com outros homens, grupo que corresponde a mais de 90% dos casos de incidência da doença no mundo. Mesmo assim, Renata decidiu tentar tomar a vacina contra a doença que tem se espalhado pelos Estados Unidos.
À reportagem, conta ter sido a única mulher na fila do local em que recebeu a picada. Ela chegou a hesitar por alguns minutos quando ouviu da enfermeira que a atendeu sobre os efeitos colaterais, mas acabou convencida pela própria profissional de saúde. Renata, que apresentou apenas dor na região onde o imunizante foi aplicado, atribui a facilidade em ter conseguido uma vaga à resistência da população de onde vive em se vacinar, como aconteceu com a covid-19.
As mulheres não estão livres de se contaminarem pela varíola dos macacos (Foto: Getty Images)
Situação como essa não deve ser possível no Brasil no curto ou médio prazo, mas especialistas ouvidos pela reportagem alertam que, ainda que seja preciso ter cuidado, não há motivo para pânico. “Não tem vacina para todo mundo e talvez nem precise ter. A gente precisa ter mais vacinas do que tem hoje, mas esta não é uma vacinação para a população inteira”, diz Fernanda Boulos, Diretora de Matérias Médicas do Instituto Butantan.
Excluídas dos grupos prioritários em países em que a vacinação contra a varíola dos macacos já está disponível, as mulheres não estão livres de se contaminarem. Mas então por que algumas campanhas estão focadas na prevenção dos homens? Considerada emergência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a monkeypox ou varíola dos macacos tinha contaminado mais de 50 mil pessoas, em mais de 90 países até meados de setembro.
Na maior parte dos países onde a doença surgiu recentemente (com exceção de países africanos onde ela é endêmica), mais de 90% dos casos se deram em homens que fazem sexo com homens. Contudo, o médico Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), reforça que essa incidência não significa que apenas este grupo de pessoas está exposto à doença. “Os casos tendem a aumentar. Essa é uma tendência epidemiológica dinâmica. Não há porque imaginar que mulheres e crianças possam se contaminar, é questão de tempo”, explica, acrescentando que é preciso evitar a estigmatização.
A vacina, disponível de maneira limitada no mundo todo, ainda não está sendo aplicada no Brasil. De acordo com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o imunizante deve chegar ao Brasil na segunda quinzena de setembro. O Ministério vem negociando junto a Opas a compra de 50 mil vacinas. Porém, esse primeiro lote deve ser destinado exclusivamente aos profissionais de saúde que estão expostos ao vírus, seja no atendimento aos pacientes ou em laboratórios. Ainda não há previsão de compra de lotes adicionais. Em entrevista à TV Brasil em 18 de setembro, Queiroga mencionou a possibilidade de que as doses sejam fracionadas em até cinco partes, como vem sendo feito em outros países do mundo.
Devido à quantidade limitada de doses, o governo brasileiro vai adotar por enquanto estratégia diferente da utilizada em países como os Estados Unidos, onde há mais de 24 mil casos, ante 6,8 mil no Brasil, e onde o imunizante já estava disponível mesmo antes do surgimento da doença.
No caso norte americano, diversas regiões escolheram como grupos prioritários homens gays ou bissexuais que tivessem mais de um parceiro. Isso aconteceu inicialmente na capital Washington, mas passadas algumas semanas, a prefeitura local estendeu a vacinação para todas as pessoas que tivessem mais de um parceiro. A cidade de Nova York, onde há mais de 3,4 mil casos, teve o estado de emergência decretado e são priorizados homens adultos com diversos parceiros ou qualquer pessoa cujo parceiro tenha sido contaminado.
Para a médica infectologista Carla Kobayashi, do Hospital Sírio Libanês, direcionar a vacina para esse grupo mais exposto faz sentido. “É racional porque tem uma tentativa de bloquear um pouco a transmissão”, explica.
A vacina normalmente é aplicada em duas doses, com intervalo de 28 dias entre elas. Mas, para tentar ter um maior aproveitamento da quantidade limitada de imunizantes, os Estados Unidos já aprovaram um modo diferenciado de aplicação, intradermal. Países europeus estudam fazer o mesmo e, mais recentemente, Queiroga falou sobre essa possibilidade no Brasil. Isso quer dizer que o imunizante será introduzido entre as camadas da pele, e não abaixo da pele, como era feito anteriormente. Com isso, apenas um quinto da dose pode ser utilizada. Estudos mostram que esta quantidade e método já garantem a proteção do indivíduo.
Kobayashi acrescenta que é preciso fazer a diferenciação entre grupos mais expostos à contaminação e os mais vulneráveis a complicações. “Temos coisas diferentes: temos um grupo que está mais exposto à contaminação e um grupo mais vulnerável à complicação. A OMS destaca três grupos com base no que acontece na África endêmica. Relatos anteriores são usados para dizer qual é o comportamento do vírus, mas nada é claro desse surto atual”, diz. Ela cita que, segundo essas informações da OMS, crianças, imunodeprimidos e gestantes estão entre os mais expostos a terem complicações.
Crianças e imunodeprimidos estão mais expostos por terem menor capacidade do sistema imunológico de se defender contra o vírus. Já no caso das grávidas, casos anteriores mostraram que pode haver a transmissão da doença da mãe para o bebê através da placenta, o que já acarretou em alguns casos má formação do feto.
A infectologista lembra que é preciso ficar atento às diferenças de transmissão de risco da varíola dos macacos, com a Covid-19, que está na memória da população atual como fator de preocupação. Ela reforça que tanto a taxa de transmissão é mais baixa quanto os grupos mais suscetíveis a desenvolverem problemas são distintos.
“Quem era risco na covid é diferente risco para monkeypox. Alguns idosos podem ter recebido a vacina da varíola humana lá em 1960, 1970. A gente não tem descrito quanto de imunidade essa pessoa tem em 2022, mas a gente imagina e acredita que existe uma possibilidade de imunização de quem recebeu a vacina antigamente”, explica.
Não existe atualmente uma vacina específica para a varíola dos macacos e o imunizante que vem sendo utilizado no mundo todo o mesmo aplicado para a varíola humana. Apesar de ser a mesma vacina, ela possui nomes distintos na Europa, onde é chamada de Imvanex , e nos Estados Unidos, onde recebe o nome de Jynneos. A baixa quantidade de doses disponíveis atualmente se deve ao fato de a varíola ser uma doença considerada erradicada nos anos 1980. “Não temos uma vacina específica para monkeypox, é da varíola humana. Deixou de ser fabricada em larga escala nas décadas de 1970 e 1980”, acrescenta Kobayashi.
Por enquanto, a vacina disponível no mundo vem sendo usada para o que especialistas chamam de bloqueio, para evitar que a doença se espalhe ainda mais. Enquanto isso, o alerta é para que todos fiquem atentos aos sintomas da varíola dos macacos: febre, dores de cabeça e surgimento de feridas na pele. Em caso de contaminação, a pessoa deve se isolar e buscar ser diagnosticada. Além da compra de vacinas, o governo brasileiro anunciou que obteve da Anvisa a dispensa de registro de um medicamento para tratar a doença.
Ainda que não seja uma doença sexualmente transmissível, é por meio do ato sexual que a varíola dos macacos tem se espalhado mais. Isso acontece porque a contaminação se dá no contato pele com pele e por meio de fluídos corporais de uma pessoa contaminada.
“A transmissão se dá por contato direto com lesão de pele ou pelo fluido corporal da pessoa contaminada”, explica Boulos. A especialista reforça que, se fosse uma DST, grupos como crianças e profissionais de saúde que lidam com pessoas infectadas ou manipulam o vírus, como em laboratório, estariam mais protegidos. Especialistas explicam que, além do contato com a pele, a manipulação de objetos contaminados como toalhas, por exemplo, pode transmitir a doença, além de gotículas de saliva e suor.
Outra diferenciação que especialistas fazem da doença e das formas de se proteger contra ela é a vacinação pós-exposição ao vírus. “A vacina também funciona para pessoas que tiveram contato com pessoas contaminadas”, explica Boulos. A especialista diz que há uma janela de 4 a 14 dias para a imunização, já que o vírus da varíola dos macacos tem um período de incubação de 6 a 20 dias. Para ela, essa poderia ser, por exemplo, uma forma de proteger mulheres grávidas, hoje menos expostas a risco de contágio, porém, com grande vulnerabilidade caso sejam contaminadas.
*Foi utilizado pseudônimo para proteger a identidade da personagem, a seu pedido